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Enfrentando a pandemia no Complexo do Alemão: ações conjuntas do GT Comunitário da Clínica de Família Zilda Arns e do Gabinete de Crise do Alemão, município do Rio de Janeiro

Em continuidade à divulgação de experiências na APS para enfrentar a pandemia de COVID-19, a Rede APS quis destacar como uma clínica de família do Rio de Janeiro (RJ) se articulou com associações comunitárias locais para brindar apoio à população de uma das maiores favelas do Brasil.

O Complexo do Alemão é composto por 13 favelas, com uma população estimada de 100.000 pessoas, e com um rico sistema de aparelhos sociais. A Clínica de Família (CF) Zilda Arns é a maior de 7 clínicas que atende a população do Alemão, tendo 14 equipes de Saúde da Família e cerca de 50.000 pessoas cadastradas. Como unidade escola, com 42 médicos, 23 enfermeiros e 16 técnicos de enfermagem, vale reconhecer que a Clínica Zilda Arns é um complexo que articula serviço de saúde e ensino médico e não reflete a realidade de muitas outras unidades de atenção básica do município do Rio de Janeiro. Desde o início da pandemia, a gerencia e os profissionais da unidade se organizaram em Grupos de trabalho (GTs) para focar as dimensões da atenção, monitoramento dos casos e articulação comunitária.

O que é a articulação entre clínica e comunidade para enfrentar a Covid-19?

Esta experiência singular foi apresentada ao Comitê Gestor da Rede APS, via vídeo conferência, pela Dra. Jade Almawy e por Raul Santiago. A primeira é médica de família e comunidade pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP-Fiocruz), preceptora da residência em Medicina da Família e Comunidade (MFC) do programa municipal de saúde do RJ, e atua na CF Zilda Arns, onde se responsabiliza pela criação e operação do GT Comunitário da Covid-19. O segundo, Raul Santiago, além de ser morador do Complexo do Alemão, é jornalista, ativista social, membro da Anistia Brasil, e responsável pelo Coletivo Papo Reto. Como tal, envolveu-se no Gabinete de Crise do Complexo do Alemão, mecanismo comunitário criado para articular uma resposta comunitária à pandemia através de seus coletivos, independente da gestão municipal. 

O presente relato reúne as duas perspectivas e traz a experiência de colaboração entre esses dois grupos que surgiram para encarar a pandemia. Por um lado, o Gabinete de Crise, integrado por líderes comunitários dos três principais aparelhos sociais do Complexo do Alemão: Raul Santiago, chefe do Coletivo Papo Reto; Renê Silva dos Santos, fundador do jornal Voz da Comunidade, meio de comunicação amplamente utilizado pelos moradores de várias favelas além das do Complexo; e Camila Santos, Presidente do Coletivo Mulheres em Ação pelo Alemão, que teve a iniciativa de fomentar esta colaboração entre os diferentes grupos comunitários, ainda sem a saúde.

Por outro lado, o GT Comunitário da CF Zilda Arns, do qual a Dra. Jade faz parte, criado junto com outros grupos de trabalho (GTs) para enfrentar a emergência sanitária e social trazida pela COVID-19 na unidade básica e seu território. A criação do GT Comunitário inspirou-se na movimentação já encaminhada pelo Gabinete de Crise, quando os profissionais da CF notaram que, além da adaptação da atenção à saúde, a pandemia criava outros tipos de demandas na população.

Como se opera essa articulação?

Uma vez estabelecido um primeiro contato, os membros do GT Comunitário perceberam entre os 30 integrantes do Gabinete de Crise a existência de muitas dúvidas acerca do contágio de Coronavírus: como se proteger e como higienizar as cestas básicas que estavam doando, e como alcançar as pessoas do território para que elas acreditassem que a pandemia ia chegar nas favelas e que o Coronavírus era um problema real, ao contrário do que estava sendo divulgado pelas Fake News.

Decidiram assim criar um grupo de WhatsApp com os líderes do Gabinete de Crise, para esclarecimento de dúvidas, discutir como fazer a distribuição de cestas sem criar aglomerações, e para manter o contato. Esta parceria desenvolveu-se por meio de contato direto e diário das integrantes do GT Comunitário com as lideranças sociais do Gabinete de Crise, incluindo algumas reuniões presenciais.

Inicialmente, a colaboração deu-se através de uma campanha de doação em massa, com a qual arrecadaram R$ 12.000 para aquisição e distribuição de cestas básicas, produtos de higiene e máscaras: enquanto o GT Comunitário apoiou mobilizando as redes sociais dos membros da CF para incrementar a arrecadação, o Gabinete de Crise organizou a campanha e a distribuição das doações, baseado em um mapeamento das famílias mais vulneráveis, e empregando estratégias para evitar aglomerações.

Partiu posteriormente para a ideia de estabelecer contato com as lideranças de outras associações e coletivos do Alemão, além de envolver as outras 6 clínicas responsáveis pelo atendimento à população do Complexo. Concretizou-se então numa reunião na Vila Olímpica com o Gabinete de Crise, outros presidentes de associações de moradores, e gerentes das outras clinicas. Da CF Zilda Arns, além dos profissionais que compõem o GT Comunitário, participaram o gerente e os responsáveis técnicos medico e de enfermagem.

Esta reunião ampliada abordou as angustias expressadas pelos presentes, incluindo como atingir a população no território, para que pudesse entender a importância de fazer o isolamento social e outros fatores para evitar o contágio. Também surgiram outras questões estruturais, antecedentes à pandemia e exacerbadas por ela como o fato de alguns locais do Alemão estarem há um mês sem receber água quando começou a propaganda de lavagem das mãos. Consequentemente, decidiu-se que umas das ações deveria ser a articulação com a Companhia Estadual de Aguas e Esgotos (CEADE) para assegurar um saneamento mínimo para todos.

Durante a mesma reunião identificou-se ainda a necessidade de conversar com as lideranças religiosas, estabelecendo um contato através dos membros do Gabinete de Crise, porque várias igrejas e grupos religiosos seguiam realizando rituais de culto presenciais, promovendo assim aglomerações. Finalmente, a parceria com as lideranças comunitárias permitiu uma aproximação com os líderes do tráfico de drogas, que são diretamente implicados na lei e ordem da favela, no funcionamento do comercio e outras aglomerações, para realizar uma pactuação e um alinhamento sobre o que fazer em relação à manutenção ou suspensão de atividades.  

O encontro com os líderes do tráfico teve o objetivo de combater falas de toque de recolher, e abordar a questão de agressões a pessoas possivelmente infectadas. Duas médicas da CF conversaram com seus interlocutores com transparência, expondo os números de atendimentos, casos e óbitos do painel de Telemonitoramento criado por outro GT da clínica e que segundo os líderes comunitários tinham o valor de trazer os dados de base local para o debate. Os líderes do tráfico interessaram-se tanto pelas informações quanto pelas orientações sobre isolamento social, apoiando a obrigatoriedade de uso de máscaras, e evitando chegar a medidas mais violentas como as que estavam sendo observadas em outras favelas.

Outras ações de comunicação e educação em saúde, para prover orientações sobre o isolamento e cuidados de higiene pessoal e combater as Fake News que apavoravam a população, incluíram a produção de vídeos por parte do GT Comunitário, e divulgação com o apoio das lideranças comunitárias. Os vídeos foram muito bem recebidos pela população, assim que se expandiu o repertório para abordar duvidas pontuais que os membros dos coletivos começaram a recolher e repassar para o GT Comunitário da Zilda Arns. Além disso, organizou-se uma Live para divulgar as ações de proximidade com os coletivos das comunidades, e as médicas participaram de programas online transmitidos pela página de Facebook do Voz da Comunidade. O Gabinete de Crise estabeleceu contato também com a imprensa para orientar a divulgação de informações sobre a pandemia.

Adicionalmente, empregaram-se estratégias de comunicação off-line, utilizando cartazes, carros de som, e faixas nas entradas das favelas com mensagens até engraçados – como: “achamos a planta que cura o Coronavirus: planta a bunda no sofá e fica em casa” -, para se conectar com a população que não está nas redes sociais.

Que resultados a articulação atingiu?

Até meados de maio já haviam sido doadas 4.000 cestas básicas, e atingido 40-45.000 pessoas com alimentos e kits de higiene. Por estar tão bem organizado, o Gabinete de Crise do Complexo do Alemão conseguiu “descentralizar a solidariedade” e direcionar algumas doações para outras localidades vulneráveis menos conhecidas, como os bairros Penha e Acari, e até para o Hospital Gazola, de referência para COVID-19 no Rio de Janeiro. As doações chegaram tanto de particulares quanto de empresas, clubes de futebol, e também de Lives organizadas por cantores populares. Isso tudo, ressaltou a Dra. Jade, foi possível graças à capilaridade dos coletivos e associações comunitárias, que conseguiram ativar uma rede social bastante abrangente.

Por outro lado, a CF Zilda Arns virou referência para a COVID-19, passando a atender muitos pacientes de fora da sua área de abrangência, direcionados para procurar atendimento nessa clínica pelo Gabinete de Crise. Os mesmos integrantes do Gabinete de Crise preferiram ser atendidos na Zilda Arns em vez de procurar atendimento na unidade responsável pelo território deles. Através do Gabinete de Crise os profissionais da CF conseguem também identificar as pessoas em estado de vulnerabilidade, e ir até elas quando necessário, além de conseguir informação crucial sobre óbitos em domicílio. Este compartilhamento de informações é reciproco, sendo que os profissionais da CF estão comprometidos a sinalizar para o Gabinete de Crise famílias elegíveis para receber as doações.

Que lições se apresentaram?

Apontando para algumas lições aprendidas, a Dra. Jade ressaltou que os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) na Zilda Arns, que poderiam estar apoiando esta ponte entre a CF e a comunidade neste momento tão delicado, acabaram sendo aproveitados em outras funções de apoio ao atendimento e ao telemonitoramento. Em parte, tal decisão se deveu a muitos dos moradores serem pessoas de risco e temerem o contágio e sua transmissão a familiares, sendo poupados para o momento de retomada dos cuidados básicos.

Lembrou também que algumas das lideranças comunitárias envolvidas na parceria já tinham uma articulação anterior com a CF, realizando ações conjuntas para o dia das crianças ou dia das mulheres. Portanto, quando chegou a pandemia o que precisaram fazer foi somente reforçar aquele vínculo, evidenciando a importância de estabelecer um nexo com a comunidade também em tempos não emergenciais, para reforçar a APS.

Por seu lado, Raul Santiago comentou que os coletivos de ação comunitária que existem no Complexo do Alemão trabalham junto com grupos internacionais desde antes da pandemia. Portanto, já estavam preocupados com a possibilidade da chegada do vírus no Brasil, e assim, de certo jeito, melhor preparados quando chegou. Incentivaram então a solidariedade entre vizinhos, chamando os moradores com mais comodidades, como caixas de agua, para compartilhar com os de menos recursos. Até conseguiram fazer parar as ações da Polícia na favela, que costumam ser de conflito, durante a pandemia.

Além disso, ressalvou que as estratégias de comunicação são analisadas e revistas diariamente, e a comunicação direta tem sido muito valorizada: uma comunicação compreensiva, que procura se aproximar das preocupações da comunidade, como perda de emprego, fome, violência doméstica, etc., ao invés de só repassar comunicações. A abordagem direta se apoia em pensar juntos as estratégias para o enfrentamento dessas problemáticas, e não simplesmente divulgar informações.

Para concluir, tanto Raul Santiago quanto a Dra. Jade destacaram que foi muito importante a articulação dos coletivos da comunidade com a CF, favorecendo uma intensa troca de saberes e práticas. Os profissionais da saúde contribuíram, com seu olhar de saúde, no compartilhamento de informações para entender melhor a situação da COVID-19. Os ativistas dos coletivos proveram uma ponte sustentável entre a CF e a comunidade, fortalecendo a APS no território.

Mais informações sobre a experiência de organização comunitária para o enfrentamento da Covid-19 no Complexo do Alemão podem ser consultadas no Facebook @gabinetealemão

Por Diana Ruiz e Valentina Martufí, doutorandas ISC/UFBA que contribuem para a REDE APS.

Rede APS

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