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Pós-Covid-19 e a importância da ESF para o cuidado e reabilitação

Atualmente temos importantes evidências sobre as manifestações clínicas agudas da doença causada pelo vírus Sars-Cov-2, a Covid-19. Entretanto, as sequelas crônicas da Covid-19 ainda não estão bem esclarecidas. Neste boletim apresentamos algumas evidencias científicas relacionadas com a Covid-19 pós-aguda ou crônica e destacamos que as caraterísticas do modelo de atenção da Estratégia Saúde da Família possibilitam o acompanhamento e cuidado integral dos usuários com sintomas crônicos. 

A Covid-19 aguda geralmente se estende até por 4 semanas a partir do início dos sintomas. Quando os sintomas continuam presentes num período de 4 a 12 semanas podemos falar de Covid-19 subaguda ou contínua. Quando os sintomas persistem além de 12 semanas após o início da fase aguda temos uma síndrome crônica ou pós-Covid-19 (Shah et al., 2021).

Segundo dados do COVID-19 Symptom Study, pesquisa realizada com mais de 4 milhões de pessoas nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Suécia mediante um aplicativo para smartphone onde as pessoas inserem seus sintomas, 10% dos pacientes com teste positivo para SARS-CoV-2 apresentam sintomas por mais de 3 semanas. (COVID-19 Symptom Study, 2021).

Estudos de coorte desenvolvidos na China, Estados Unidos e Europa, com diferente número de participantes, acompanhados por telefone ou de forma presencial, têm apresentado percentagens maiores de pacientes com sintomas pós-Covid-19. (Nalbadian et al., 2021). Em um estudo de coorte realizado em Wuhan, China com 1733 pacientes, 76% deles reportaram pelo menos um sintoma após 6 meses. Os sintomas mais comuns foram: fadiga ou fraqueza muscular (63%), dificuldade para dormir (26%), ansiedade ou depressão (23%). (Huang et al., 2021). Em um estudo de coorte realizado em Michigan, Estados Unidos, com 488 pacientes, 32,6% deles relataram sintomas persistentes após 60 dias do início dos sintomas agudos. A dispneia ao subir escadas (22,9%), a tosse (15,4%) e a perda do paladar ou olfato (13,1%) foram os principais sintomas relatados. (Chopra et al., 2020). Em estudo desenvolvido na Itália com 143 pacientes acompanhados após 60 dias desde o início dos sintomas na fase aguda, 87,4% dos participantes relataram persistência dos sintomas após 6 meses. Os sintomas mais comuns foram: fadiga (53,1%), dispneia (43,4%), dor nas articulações (27,3%), dor torácica (21,7%) e menor qualidade de vida medida pela escala visual analógica EuroQol (44,1%) (Carfi et al., 2020).

Estudos de revisão sistemática que incluíram pesquisas sobre os sintomas de longo prazo da COVID-19 têm mostrado que os sintomas mais comuns são funções pulmonares anormais, dispneia persistente, fadiga, deterioração neurológica geral, alterações do olfato e paladar. Outros sintomas comuns incluem dores nas articulações e no peito. Além disso, destacou-se que os problemas pós-Covid-19 podem estar presentes em pacientes que tiveram Covid-19 severo, moderado ou leve na fase aguda. (Nalbadianet al., 2021; Salamanna et al., 2021) 

Levando em conta a evidência disponível de Covid-19 subagudo e síndrome pos-Covid-19 os pesquisadores apontam para a necessidade de acompanhamento dos pacientes além da fase aguda, por parte de uma equipe multiprofissional. A maioria dos casos não precisam ser encaminhados para atenção especializada, podendo ser acompanhados na APS. Também destacam a importância do acolhimento, escuta e reconhecimento dos sintomas dos pacientes com Covid-19 subagudo ou crônico. (Greenhalg et al., 2020; Shah et al., 2021).

Algumas das ações que podem ser desenvolvidas no âmbito da APS para o cuidado e recuperação progressiva dos pacientes com Covid-19 subagudo ou crônico são: testes de tolerância ao exercício, radiografia de tórax em pacientes com sintomas respiratórios após 12 semanas (Shah et al., 2021), uso de oxímetro de pulso para monitorar os sintomas respiratórios pós-Covid-19 no domicilio, exercícios de respiração e medicamentos (quando for necessário) para controlar a tosse, treinamento físico iniciando com exercícios aeróbicos leves (como caminhada ou pilates), avaliação e orientação nutricional, ações de informação em saúde orientadas ao autocuidado e à mudança de comportamentos, participação em grupos de apoio, orientação para acesso a programas e ações de suporte social, uso de aplicativos para rastreamento de sintomas. Destacando que essas atividades também podem ser desenvolvidas de forma remota através de vídeos, cartilhas e acompanhamento telefónico. (Greenhalg et al., 2020).

Tendo em consideração essas orientações baseadas na evidência disponível, observa-se que a Estratégia Saúde da Família tem a potencialidade para realizar o cuidado integral dos usuários com Covid-19 subagudo ou crônico. As características da ESF como a capilaridade, a acessibilidade e primeiro contato, com processos de acolhimento qualificados, a longitudinalidade, a integralidade, a coordenação, a orientação familiar e comunitária e a competência cultural, com o importante trabalho dos ACS nos territórios, permitem que as equipes multiprofissionais da ESF com o apoio matricial do NASF realizem as ações de cuidado e reabilitação necessárias e recomendadas para os pacientes com síndrome pós-Covid-19. Portanto, é necessário fortalecer a ESF e recuperar os NASF que têm deixado de funcionar, ampliar sua oferta e garantir o financiamento adequado da APS e do SUS para ofertar um cuidado adequado aos usuários com síndrome pós-Covid-19 e continuar respondendo às necessidades em saúde rotineiras das comunidades.

Por: Diana Ruiz, doutoranda que contribui com a Rede APS

Referências

Carfì A, Bernabei R, Landi F. Persistent Symptoms in Patients After Acute COVID-19. JAMA. 2020;324(6):603–605. Disponível em: 10.1001/jama.2020.12603 Acesso: 27 jul 2021

Chopra, V., Flanders, S. A. & O’Malley, M. Sixty-day outcomes among patients hospitalized with COVID-19. Ann. Intern. Med. 2020. Disponível em:  https://doi.org/10.7326/M20-5661 Acesso: 27 jul 2021

COVID Symptom Study. How Long Does COVID-19 Last? Disponível em:  https://covid19.joinzoe.com/post/covid-long-term?fbclid=IwAR1RxIcmmdL-EFjh_aI- Acesso: 28 jul 2021

Greenhalgh T, Knight M, A’Court C, Buxton M, Husain L. Management of post-acute covid-19 in primary care BMJ 2020; 370 :m3026 Disponível em: https://doi.org/10.1136/bmj.m3026 Acesso: 28 jul 2021

Huang C, Huang L, Wang Y, et al. 6-month consequences of COVID-19 in patients discharged from hospital: a cohort study. Lancet. 2021 Jan 16;397(10270):220-232. Disponível em:  https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)32656-8. Epub 2021 Jan 8. PMID: 33428867; PMCID: PMC7833295. Acesso: 27 jul 2021

Nalbandian, A., Sehgal, K., Gupta, A. et al. Post-acute COVID-19 syndrome. Nat Med 27, 2021:601–615. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41591-021-01283-z Acesso: 27 jul 2021

Salamanna, Francesca et al. Post-COVID-19 Syndrome: The Persistent Symptoms at the Post-viral Stage of the Disease. A Systematic Review of the Current Data. Frontiers in medicine 2021 May ;(8): 653516. Disponível:  10.3389 / fmed.2021.653516 Acesso: 28 jul 2021

Shah W, Hillman T, Playford ED, Hishmeh L. Managing the long term effects of covid-19: summary of NICE, SIGN, and RCGP rapid guideline. BMJ. 2021 Jan 22;372:n136. Disponível: https://doi.org/10.1136/bmj.n136 PMID: 33483331 Acesso: 27 jul 2021

 

 

 

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