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Relatório do 2°Seminário 2021 da Rede APS – A APS não pode parar!

No dia 10 de agosto de 2021 foi realizado o 2° Seminário 2021 Rede APS – A  Atenção Primária não pode parar: continuidade do cuidado durante e após a pandemia transmitido pelo canal de YouTube TV Abrasco e disponível em: https://youtu.be/IYq3gbnUgpM

A continuidade dos cuidados nas UBS durante e após a pandemia, tema do seminário é uma questão de grande relevância atual. Em diferentes epidemias foi observado um excesso de mortes por outras causas que deixam de ser atendidas, que podem superar aquelas pela doença emergente. Grávidas, hipertensos, diabéticos, demandas agudas por outros problemas seguem precisando de atenção e ações de prevenção e promoção precisam ser desenvolvidas.

No entanto, em diferentes países parece ter se observado uma redução no uso dos serviços de atenção primária no contexto da pandmeia de Covid-19. Isso já foi documentado em países como os Estados Unidos, o Canadá e a Holanda. Além disso, no Reino Unido e nos Estados Unidos também existe uma importante preocupação pela diminuição na cobertura vacinal infantil, o que aumenta o risco de surtos de doenças evitáveis com vacinas. (Huston et al., 2020)

Situações similares aconteceram em diferentes locais do Brasil. Em muitas UBS, as atividades de cuidado de rotina foram reduzidas, em alguns casos suspensas, com diminuição de cobertura vacinal, de atenção pré-natal e de cuidado de grupos prioritários como foi demonstrado na pesquisa conduzida pela Rede APS em 2020. Porém, gradualmente as ações de rotina da ESF vêm sendo adaptadas e retomadas. O desafio da continuidade do cuidado está sendo enfrentado pelas equipes da ESF em todo o país com diversas estratégias, muitas dificuldades e muita criatividade.

Com o objetivo de reforçar a necessidade da continuidade das ações de rotina das equipes da ESF durante a pandemia, a Rede APS organizou o Seminário “A Atenção Primária não pode parar: continuidade do cuidado durante e após a pandemia. Na mesa de abertura, Bernadete Perez Coelho (Vice-presidente da ABRASCO) e Luiz Augusto Facchini (Coordenador Rede APS e professor da UFPel) destacaram a relevância do tema do seminário e o importante papel desenvolvido pela Rede APS propiciando e ampliando este tipo de debates. Durante o evento foram apresentadas e discutidas diversas experiências de continuidade do cuidado desenvolvidas em UBS de diferentes regiões do Brasil, que demonstram a importante capacidade de reinvenção das equipes da ESF.

A experiência de Florianópolis apresentada por Elizimara Siqueira (Gerente de Enfermagem da SMS – Florianópolis – SC) e Carlos Henrique Vaz (Médico de Família e Comunidade da SMS – Centro de Saúde Saco Grande – Florianópolis – SC) demostrou a importância da análise e planejamento das ações de maneira conjunta. Na SMS de Florianópolis, no início da pandemia implementou-se um gabinete de crise com esses objetivos. O gabinete produziu material para orientar a atenção na rede, uso adequado de EPI, um guia para teleatendimento em enfermagem, dentre outras ações. A partir das orientações do guia, as unidades de saúde foram adaptadas para atender, separadamente, as demandas cotidianas e também os sintomáticos respiratórios. Além disso, neste caso foram utilizados diferentes recursos clínicos para garantir a continuidade do cuidado: prontuário eletrônico com listas de problemas e condições de saúde (em etiquetas); WhatsApp bussiness (recurso mais próximo da população), Google Forms (para organizar a demanda e encaminhar para os diferentes setores); planilhas de continuidade do cuidado (projeto piloto para acompanhar os usuários e identificar atrasos na continuidade do cuidado para gestantes e hipertensos/diabéticos). Cabe destacar que, em Florianópolis, antes da pandemia, a estratégia de atendimento “Alô Saúde Floripa” já estava em andamento e todas as equipes da ESF já contavam com um celular institucional com WhatsApp. Essas caraterísticas prévias facilitaram a reorganização das demandas dos usuários, garantindo a continuidade do cuidado seja de maneira presencial, virtual ou facilitando o encaminhamento para outros pontos da rede de atenção, segundo a análise da necessidade. ´

A rica experiência da UBS Grangeiro II no Crato (CE) foi apresentada pela enfermeira Érika Formiga, destacou a importância das ações de vigilância, o enfoque territorial e a dimensão cultural. Essas caraterísticas da ESF permitiram identificar no território os pontos críticos com maior número de casos de Covid-19 onde deveria se atuar com maior rapidez. As ações de vigilância foram fortalecidas por meio da cartografia social e redesenho do território, implementação de planilhas de acompanhamento para os casos suspeitos e sintomáticos, classificação de vulnerabilidades sociais e clínicas principalmente dos usuários portadores de doenças crônicas. Além disso, a dimensão cultural facilitou a identificação e implementação de diversas estratégias para garantir a continuidade do cuidado e facilitar a comunicação. Foram usadas as redes sociais, grupos de WhastApp, jornal virtual, cartilhas, e-books, web rádio comunitária, podcast, e até a estratégia de “Poste informativo”, onde cartazes com informações relevantes são colados em postes em locais de muita movimentação. Também, foram implementados “Projetos Afetivos” que são ações para garantir o cuidado além da unidade de saúde. Alguns exemplos dessas iniciativas implementadas são: “Fala saúde na comunidade” visitas à comunidade levando as informações sobre a Covid-19 e outras necessidades evidenciadas no território; “Cartas solidárias” escritas pela equipe de saúde e enviadas para os usuários em isolamento; “Varal de poesias e saúde”: na sala de espera da UBS se recita poesia; “Visita segura e afetiva”: protocolo para desenvolvimento de visitas domiciliares; e “Prontuário afetivo”: além do prontuário clínico foi desenhado um outro prontuário baseado na escuta qualificada.

Marina Carvalho Berbigier (Nutricionista UFRGS – UBS Santa Cecília – Porto Alegre) chamou atenção para o desmonte dos NASF que aconteceu em Porto Alegre desde o final de 2019. Essa desfavorável mudança tem afetado a integralidade, continuidade do cuidado na ESF e o enfrentamento à pandemia porque o apoio matricial já não está sendo realizado. Além disso, Berbigier destacou a piora do quadro de segurança alimentar no Brasil, situação que se evidenciava antes da pandemia e que piorou ainda mais nos últimos dois anos. Levando em conta esse contexto, destacou a importância da continuidade do cuidado nutricional, tanto garantindo a assistência nutricional clínica através de telessaúde/telenutrição, usando videoconferência, e-mail, WhatsApp e em alguns casos visitas domiciliares e consultas presenciais sequenciais para os usuários que apresentam dificuldades ou que não tem acesso a essas tecnologias. Continuando o acompanhamento às famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família por meio do telemonitoramento, ajudando no processo para o acesso e extensão do recurso emergencial e apoiando as ações da PNAE para que o recurso para alimentação escolar fosse usado para entregar cestas básicas para as famílias.

Para finalizar as apresentações, destacou-se o importante papel desenvolvido pelos Agentes Comunitários de Saúde na continuidade do cuidado na ESF. A competência cultural e conhecimento do território, têm contribuído na implementação de estratégias inovadoras e na reorganização da APS e para enfrentar a pandemia causada pela Covid-19 e continuar com a rotina nos atendimentos. Maria Eliene Teixeira (Agente Comunitária de Saúde da ESF – UBS Frei Tito de Alencar – Fortaleza – CE) salientou que a prática de expressões artísticas (desenhos, ilustrações, músicas) tem sido uma importante ferramenta para facilitar a comunicação com os usuários e combater as fakenews no seu território de atuação. Além disso, também são utilizadas outras estratégias como conformação de grupos de WhatsApp com os usuários, rádio comunitária, produção e divulgação de podcast, dentre outros.

Aylene Bousquat coordenadora do seminário e Ligia Giovanella coordenadora da Rede APS e pesquisadora sênior Ensp/Fiocruz destacaram que as experiências apresentadas demonstram que apesar da falta de coordenação nacional e da necropolítica do governo federal, as equipes da Estratégia Saúde da Família têm se reinventado para garantir a continuidade do cuidado. Os profissionais e as equipes têm demostrado sua resiliência e criatividade para responder às demandas de rotina e também as novas necessidades associadas à Covid-19. Ainda, em cenários não ideais, com sobre carga de trabalho, vínculos de trabalho precários e sem acesso a celulares e computadores institucionais e internet de qualidade.

Nas experiências foi evidenciado que o uso de estratégias diversas, desde as tecnologias da informação e comunicação até arte, música, escuta qualificada e acolhimento afetivo são importantes para a melhoria do cuidado na ESF. O teleatendimento em saúde não é substitutivo do atendimento presencial, mas é uma importante ferramenta a mais para garantir a integralidade e continuidade do cuidado. Também, foi demonstrado que características da ESF como as dimensões cultural, familiar e comunitária, o enfoque territorial e o desenvolvimento de ações de vigilância, que historicamente têm sido muito importantes para a modificação das condições de vida e saúde da população, durante o surto são ainda mais relevantes no cenário da pandemia.

Porém, faz alguns anos a ESF está sofrendo importantes ataques, como a mudança no financiamento programa “Previne Brasil” e o desmantelamento do NASF. É imprescindível nos posicionar contra essas mudanças, defender e reafirmar a escolha do ideário da ESF como forma da APS e reivindicar relações de trabalho estáveis no SUS.

Além disso, não podemos esquecer que a situação da pandemia ainda é crítica. É necessário continuar com as ações de autocuidado, garantir máscaras N 95 PFF2 para os trabalhadores da saúde e máscaras cirúrgicas associadas às de pano para os usuários. Continuar com a separação de fluxos nas UBS, garantir ventilação, prevenir aglomerações e promover distanciamento físico de 2 metros. Também, é necessário acelerar a vacinação, continuar a vigilância ativa e comunitária exigir mais testes RT PCR e exigir testes rápidos de antígeno em todas as UBS em todas as escolas.

Apresentações

Carlos – Longitudinalidade do cuidado e atendimentos remotos_ (1)

Érika – ApresentaçãoERIKA  

Maria Eliene – Cuidado durante a pandemia por Eliene Magalhães

Referências

Huston P, Campbell J, Russell G, Goodyear-Smith F, Phillips RL Jr, van Weel C, Hogg W. COVID-19 and primary care in six countries. BJGP Open. 2020 Oct 27;4(4):bjgpopen20X101128. Disponível em: doi: 10.3399/bjgpopen20X101128 PMID: 32900708; PMCID: PMC7606153. Acesso: 18 ago 2021

Rede APS

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