Boletim
O Professor Dr. Luiz Augusto Facchini, ex-presidente da Abrasco, coordenador da Rede de Pesquisa em Atenção Primária à Saúde e um dos coordenadores do Censo Nacional das Unidades Básicas de Saúde de 2024, participou da 4ª temporada do podcast “A Saúde é Coletiva” da Abrasco e trouxe à luz um diagnóstico detalhado da Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil, levantamento foi liderado pelo Ministério da Saúde, em parceria com a Abrasco. Realizado entre junho e setembro de 2024, o censo abrangeu quase 45.000 UBS do Sistema Único de Saúde (SUS), revelando importantes avanços e desafios.
“A própria realização do Censo é algo a se destacar. Ele foi feito em tempo recorde e é bastante detalhado. Agora, cada município pode ter informações muito valiosas sobre a característica de cada serviço da sua rede e aí fazer os investimentos e esforços necessários”, afirma Luiz Augusto Facchini.
O pesquisador e coordenador da Rede APS enfatizou que o Censo Nacional das UBS representa um marco na avaliação da APS no SUS. O censo se destaca por sua magnitude e abrangência, sendo o maior estudo já realizado sobre as UBS no Brasil. A iniciativa do Ministério da Saúde, em parceria com a Rede de Pesquisa em Atenção Primária à Saúde da Abrasco e o apoio do CONASS, Conasems e Opas, foi possível graças a um acordo tripartite, que mobilizou uma vasta rede de pesquisadores e colaboradores em todo o país. Esse esforço conjunto permitiu a coleta de dados detalhados sobre infraestrutura, recursos, práticas de trabalho e serviços oferecidos nas UBS.
A região Nordeste é uma referência em APS. Um dos dados mais impactantes e surpreendentes do censo foi a evolução da APS na região Nordeste. Historicamente em desvantagem, a região tem superado as desigualdades e se tornou uma referência em diversos aspectos da APS, igualando e, em alguns casos, superando o padrão do Sul e Sudeste. Isso reflete um avanço significativo na equidade em saúde, buscando garantir que todos os cidadãos, independentemente da região, tenham acesso a cuidados de qualidade.
A Equipe de Saúde da Família e equipe Multiprofissional. O censo revelou que 88% das UBS contam com pelo menos uma equipe de Saúde da Família [1], com destaque para o Nordeste, onde esse índice chega a 94%. Outra informação relevante é que 42% das UBS contam com eMulti.
Ao ser questionado sobre a notícia que 59% das UBS contam com um médico, que ganhou destaque na mídia. O Professor Facchini enfatizou que o médico nas UBS nunca trabalha sozinho, mas sim integrado a uma equipe de enfermagem, odontologia, técnicos, auxiliares e agentes comunitários de saúde. Essa abordagem colaborativa permite um cuidado mais integral e abrangente, incluindo desde o atendimento domiciliar a ações de vigilância no território.
Apesar de 59% das UBS operarem com apenas um médico, essa informação deve ser interpretada dentro do contexto da equipe. Embora a ampliação de equipes em UBS seja benéfica para a troca de informações e diminuição da carga de trabalho, o padrão atual de ter médico em mais de 96% das UBS [1] representa o melhor desempenho do SUS em toda a sua história, com aproximadamente 54.000 a 55.000 médicos atuando regularmente na APS.
No que se refere aos Avanços, Desafios e Perspectivas, Facchini destacou achados referentes à infraestrutura e tecnologia. A pesquisa apontou que 85% das UBS são prédios próprios dos municípios, com boa parte possuindo desenho arquitetônico adequado [1]. No entanto, a maioria dessas UBS são pequenas, e o censo identificou que 70% delas possuem terreno suficiente para ampliação. Isso indica uma perspectiva positiva para investimentos em expansão e melhorias.
No que tange à tecnologia, houve um avanço notável no acesso à internet: de 45% das UBS em 2012 para 95% em 2024. Contudo, 30% das unidades ainda enfrentam problemas com a qualidade da conexão. A necessidade de investir em equipamentos de saúde digital, como oxímetros, espirômetros, aparelhos para avaliação de retina e ouvido, eletrocardiogramas portáteis e ultrassons, foi destacada como essencial para aprimorar o trabalho das equipes e a capacidade de resposta às necessidades da população.
Perspectivas e próximos Passos para a orientação de políticas e pesquisas. “Os resultados do Censo Nacional das UBS servirão como base para orientar políticas e iniciativas do Ministério da Saúde, em parceria com estados e municípios. Além disso, os dados possibilitarão a realização de estudos e análises aprofundadas sobre as desigualdades e carências, relacionando-as a outros bancos de dados e informações sobre a situação de saúde da população e a rede de proteção social. A expectativa é que o censo impulsione uma vasta quantidade de ações e atividades em prol do fortalecimento do SUS”, afirmou Facchini em entrevista ao podcast.
Boletim elaborado por Eugênia Portes e Bruna Venturin.
🔗 Saiba mais: https://abrasco.org.br/no-ar-episodio-25-o-que-o-censo-das-ubs-revela-sobre-desigualdades-em-saude-com-luiz-facchini/
Ouça a entrevista nas principais plataformas de áudio:
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Referências:
[1] Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Coordenação-Geral de Programação de Financiamento da Atenção Primária. Censo das Unidades Básicas de Saúde : Sumário Executivo [recurso eletrônico. Brasília: DF, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/censo-das-ubs/publicacoes/censo-nacional-ubs-2024.pdf.