A relevância da Estratégia Saúde da Família (ESF) fundamenta-se em seu impacto direto na melhoria dos indicadores de morbimortalidade da população, respaldada por robustas evidências. Estudos de revisão indicam que o aumento de cobertura da ESF promove reduções na Taxa de Mortalidade Infantil de até 4,5%, alcançando 22% de redução em cenários de alta cobertura estável. O tempo de implantação da estratégia correlaciona-se com a queda sustentada da mortalidade em adultos e idosos por causas sensíveis à APS (como doenças cardiovasculares e cardíacas) e redução de até 24% na mortalidade de crianças de 1 a 4 anos por patologias respiratórias e infecciosas, gerando forte efeito sinérgico com o Programa Bolsa Família (Aquino; Vilasbôas, 2025).
O período compreendido entre 2019 e 2022 foi marcado por uma política de desestruturação da Atenção Primária à Saúde (APS), associada à implementação do Programa Previne Brasil. A análise crítica desse modelo evidencia uma concepção limitada, seletiva e focalizada de atenção à saúde, com restrições à multiprofissionalidade e à abordagem comunitária, além de ameaças aos princípios da universalidade e da integralidade (Giovanella et al., 2026), sem alocar recursos adicionais, o que levou à redução das transferências financeiras do Ministério da Saúde para milhares de municípios (Melo et al., 2025).
Esse período também compreendeu a pandemia de Covid-19, a maior crise sanitária do nosso tempo, que tomou contornos mais graves em nosso país na ausência de coordenação nacional, com descaso pela vida das pessoas, resultando em uma crise humanitária com mais de 700 mil mortes, em grande parte evitáveis.
A partir de 2023, o cenário institucional foi marcado pela retomada da reconstrução do SUS e pelo resgate da ESF como o modelo prioritário, ordenador da rede e estruturante da APS (Giovanella et al., 2026). A transição para a Portaria GM/MS nº 3.493/2024 instituiu uma nova metodologia de cofinanciamento federal organizada em três componentes essenciais: o componente fixo, o componente de vínculo e acompanhamento territorial, e o componente de qualidade. Este novo desenho corrigiu distorções anteriores, retomando pagamentos fixos consideravelmente maiores para equipes de Saúde da Família (eSF) em relação às equipes de atenção primária (eAP), além de diminuir a população adscrita em áreas vulneráveis para qualificar o vínculo longitudinal (Oliveira et al.).
De fato, foi retomada a prioridade para o modelo assistencial da ESF e introduzidas novas iniciativas para a promoção da equidade na APS e no SUS, com o estímulo à expansão da cobertura da ESF por meio de mecanismos indutores para ampliar a assistência à população. Essa medida resultou na expansão das 48.606 equipes em 2022 para 54.848 eSF em 2026, o que representa um crescimento de 12,84% em relação a 2022. No mesmo período, o investimento orçamentário nas eSF aumentou 43,4%, passando de R$ 11,09 bilhões em 2022 para R$ 15,9 bilhões em 2026, conforme dados do e-Gestor AB referentes à parcela 9/12 (Brasil, 2026b).
Somou-se a esse movimento a retomada e o fortalecimento das ações interprofissionais, impulsionados pelo financiamento federal das Equipes Multiprofissionais (eMulti), instituídas pela Portaria GM/MS nº 635/2023, com conformação diversificada de profissionais para apoio matricial às eSF, possibilitando inclusive a atenção domiciliar de pessoas com perdas funcionais, conforme o novo Programa de Atenção Domiciliar (PAD). A iniciativa permitiu alcançar o marco de 6.492 equipes em 2026, superando, em apenas três anos, o número de antigos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF) cujo financiamento fora interrompido (Brasil, 2026b).
Na Saúde Bucal, esse diferencial da APS brasileira na comparação internacional, foi retomado o cofinanciamento federal das Equipes de Saúde Bucal (eSB) que estava estagnado. Expandiram-se de 28.253 em 2022 para 35.613 eSB em 2026, o que representa um crescimento de 26% no número de equipes. Esse avanço foi acompanhado por um incremento de 84,6% no orçamento da área (Brasil, 2026b).
Como resultado desse conjunto de investimentos, o orçamento da Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) apresentou um crescimento de 85% entre 2022 e 2026, conforme ilustrado na Figura 1. Os recursos transferidos evoluíram de R$ 33,9 bi em 2022 para R$ 39,1 bi em 2023, alcançando R$ 49 bi em 2024. Nos dois anos subsequentes, observa-se a inclusão das verbas do programa Mais Médicos, fazendo o montante atingir R$ 57,4 bi em 2025 e fechar com uma dotação atual de R$ 62,8 bi em 2026.
Figura 1 – Evolução do orçamento da Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS), 2022-2026.

Fonte: Elaborado com base em dados extraídos do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (SIOP), 2026c.
A reestruturação e expansão do Programa Mais Médicos (PMM) promoveu provimento e a formação profissional médica por meio da Lei nº 14.621/2023. O quantitativo de profissionais médicos ativos em eSF passou de 15.497 em 2022, para 26.414 em 2025, sendo a grande maioria profissionais brasileiros (87%). Em 2026 são 26.681 vagas ativas. A retomada do PMM e sua reestruturação com incentivos para a permanência no programa por até 8 anos, e a formação centrada na Medicina de Família e Comunidade, tem contribuído para a interiorização médica e a redução de vazios assistenciais. No mesmo período, o orçamento do programa passou de R$ 2,4 bi, em 2022, para R$ 4,5 bi, em 2025 (SIOP, 2026).
A composição das equipes com presença de médicos apresentou avanços expressivos. Em 2024, 96,5% das UBS brasileiras contavam com médicos, resultante, entre outros fatores, da retomada do PMM, que alcançou 80% dos municípios naquele ano (Bousquat et al., 2025).
Entre as mudanças recentes, destacam-se também a adoção de indicadores de desempenho para monitorar produção assistencial, qualidade e satisfação dos usuários; a expansão do Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), utilizado por 85% dos municípios brasileiros; e o reforço das linhas de cuidado em saúde materno-infantil, doenças crônicas não transmissíveis, saúde mental e atenção a populações vulnerabilizadas, como ribeirinhos, população em situação de rua e população prisional (Oliveira et al., 2025).
Ademais da introdução de novos indicadores complexos indutores de boas práticas no cofinanciamento federal da APS, o Censo Nacional das UBS, realizado em 2024, marca a retomada de uma política nacional de avaliação e monitoramento, pautada pelos princípios da ESF e do SUS, contribuindo para a institucionalização da avaliação no SUS (Bousquat et al., 2026). O e-book Panorama da APS no SUS: Censo Nacional das UBS 2024 apresenta os resultados desse processo (Brasil, 2025).
O período de 2023 a 2026 operacionalizou cinco vezes mais investimentos voltados às modalidades de equipes direcionadas à promoção de equidade para grupos específicos. Nesse âmbito, os Consultórios na Rua (eCR) expandiram-se de 173 equipes em 2022 para 351 em 2026. No mesmo sentido, as Equipes de Atenção Primária Prisional (eAPP) subiram de 320 em 2022 para 719 em 2026 (Brasil, 2026b).
Além disso, as Equipes de Saúde da Família Ribeirinha (eSFR) evoluíram de 203 em 2022 para 332 em 2026, enquanto as Unidades Básicas de Saúde Fluviais (UBSF), com cofinanciamento federal, expandiram de 37 para 72 no mesmo intervalo (Brasil, 2026b). Soma-se a essas iniciativas a instituição da Política Nacional de Saúde Integral da População Quilombola (PNASQ), que incorpora princípios de equidade, enfrentamento do racismo e reconhecimento das especificidades territoriais, culturais e ancestrais dessa população (Brasil, 2026a).
A retomada da prioridade para o modelo assistencial da ESF de APS integral de orientação comunitária e territorial é inegável, contudo, persistem desafios estruturais para a efetiva transformação do modelo assistencial e a universalização da ESF. Destacam-se a suficiência e a sustentabilidade do financiamento; a estabilidade dos vínculos, a formação e o trabalho colaborativo interprofissional; os riscos de mercantilização da APS; o fortalecimento da coordenação do cuidado e do papel da APS na regulação assistencial; e o enfrentamento das desigualdades geográficas, sociais, de gênero e étnico-raciais no acesso à saúde (Giovanella et al., 2026).
A celebração dos mais de 30 anos da ESF demonstra que o modelo territorializado, comunitário e multiprofissional é indispensável para garantir a equidade, a resolutividade e a universalização do SUS. Superar a vulnerabilidade institucional frente a oscilações políticas exige consolidar um financiamento público suficiente, instituir carreiras públicas estáveis para os profissionais de saúde, conter a mercantilização e efetivar a integração digital e operacional da APS com a atenção especializada e hospitalar. É tempo de esperançar, uma esperança crítica como dizia Paulo Freire.
Referências
Aquino, R, Vilasbôas ALQ. Impactos da Estra tégia Saúde da Família no estado de saúde da população brasileira: uma revisão de literatura. Ciênc Saúde Colet 2025; 30:e13942025.
Bousquat A, Schenkman S, Almeida PF, Mota PHS, Giovanella L. A estrutura das UBS brasileiras: o que mudou entre 2012 e 2024? Ciência & Saúde Coletiva. 2025;30(12):e08792025. DOI: 10.1590/1413-812320253012.08792025.
Bousquat A, Mota PHS, Pilz C, Giovanella L, Kemper ES, Klitzke D, Formoso GS, Vilasbôas ALQ, Aquino R, Thumé E, Tomasi E, Mendonça MHM, Silva A, Almeida PF, Venturin B, Facchini LA. Avaliação da atenção primária à saúde no Brasil: concepção e metodologia do Censo Nacional das Unidades Básicas de Saúde 2024. Cadernos de Saúde Pública 2026; 42(1):e00164625 doi: 10.1590/0102-311XEN164625.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde; Rede de Pesquisa em Atenção Primária à Saúde. Panorama da APS no SUS: Censo Nacional das UBS 2024 [livro eletrônico]. Brasília, DF: Ed. do Autor; 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 12.167, de 15 de setembro de 2026a. Altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 2, de 28 de setembro de 2017, para instituir a Política Nacional de Saúde Integral da População Quilombola – PNASQ, no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS. Diário Oficial da União. 2026 set 17; Seção 1:3-5.
Brasil. Ministério da Saúde. e-Gestor Atenção Básica: informação e gestão da Atenção Primária à Saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2026b. Dados referentes à parcela 9/12.
Brasil. Ministério do Planejamento e Orçamento. SIOP: Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento [Internet]. Brasília: Ministério do Planejamento e Orçamento; 2026c [acesso em 28 set 2026]. Dados extraídos em 19 mar 2026 e 09 abr 2026. Disponível em: planejamento.gov.br.
Giovanella L, Mendonça MHM, Campos EMS, Vilasbôas ALQ, Aquino R, Facchini LA. 30 anos da Estratégia Saúde da Família no Sistema Único de Saúde: marcos, avanços, retrocessos e desafios. Cad Saúde Pública. 2026;42:e00206025. doi:10.1590/0102-311XPT206025.
Melo MA, Silva AS, Pimenta AL, Mendes A, Paiva JLL. Financiamento da APS ao longo do tempo: indução, expansão e qualificação do modelo Estratégia Saúde da Família. Cien Saude Colet. 2025;30(12):e12642025. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1413-812320253012.12642025.
Oliveira FP, Alencar IC, Silva PM, Medeiros DKS, Santos JTR. Mais Saúde da Família: a reconstrução da Atenção Primária à Saúde. Ciência & Saúde Coletiva. 2025;30(12):e16632025. doi:10.1590/1413-812320253012.16632025.
Boletim elaborado por Raquel Bergaria de Oliveira, Doutoranda FSP (USP)/Secretaria Executiva da Rede de Pesquisa em APS
Rede de Pesquisa em Atenção Primária à Saúde – Abrasco
Boletim Informativo, 29 de setembro de 2026.