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Rede APS

O Tecendo Linhas do Cuidado Integral à Saúde na Amazônia é um projeto de implementação voltado ao fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS) em seis municípios das regiões do Baixo Amazonas e do Tapajós, no oeste do Pará: Almeirim, Prainha, Rurópolis, Jacareacanga, Trairão e Santarém. O projeto busca ampliar a capacidade de resposta da APS às necessidades de saúde das populações desses territórios, por meio da organização de linhas de cuidado e da incorporação de tecnologias sociais e digitais aos processos de trabalho.

Acesse o site do projeto: https://tecendo.fsp.usp.br/

Siga o projeto no Instragram: https://www.instagram.com/tecendoamazonia/

A iniciativa é coordenada pelos professores Aylene Bousquat e Paulo Mota e pela pesquisadora Simone Schenkman, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), e pela professora Juliana Gagno, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), reunindo mais de 20 pesquisadores das duas instituições. O projeto é financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pela Umane, tendo o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) como gestor da parceria.

Desigualdades sociais, território e saúde

As desigualdades sociais e econômicas brasileiras se expressam de maneira importante na distribuição das condições de saúde e no acesso aos serviços. As regiões Norte e Nordeste apresentam, em diferentes dimensões, indicadores menos favoráveis que outras regiões do país. Na Amazônia, essas desigualdades articulam-se a características territoriais específicas, como extensas áreas de baixa densidade populacional, presença de comunidades ribeirinhas e tradicionais, grandes distâncias, dependência do transporte fluvial e variações sazonais associadas aos períodos de cheia e vazante dos rios.

Essas características interferem nas condições de vida e na organização do acesso aos serviços de saúde. Distâncias, dificuldades de deslocamento e limitações de infraestrutura e comunicação podem constituir barreiras à continuidade do cuidado. Estudos sobre a APS na Amazônia mostram, ainda, que modelos estruturados a partir de referências predominantemente urbanas nem sempre incorporam adequadamente as singularidades dos territórios rurais e ribeirinhos.

A esse contexto somam-se as transformações ambientais e climáticas. Períodos de seca mais prolongados podem alterar deslocamentos, disponibilidade de alimentos e modos de vida, enquanto queimadas e desmatamento produzem efeitos sobre as condições ambientais e sociais das populações. As mudanças climáticas constituem, assim, uma dimensão adicional dos processos de determinação social da saúde e introduzem novos desafios para a organização dos serviços.

Nesse cenário, ampliar o acesso e garantir a integralidade do cuidado requer uma APS capaz de incorporar as especificidades sociais, ambientais e territoriais da região.

A APS como eixo da intervenção

Como porta de entrada preferencial do Sistema Único de Saúde (SUS), a APS desempenha funções centrais de promoção da saúde, prevenção de agravos, diagnóstico, tratamento, acompanhamento longitudinal e coordenação do cuidado. No contexto amazônico, seu fortalecimento requer estratégias que considerem distâncias, condições de deslocamento, distribuição de profissionais e infraestrutura disponível.

O Tecendo tem a APS como eixo estruturante, compreendendo-a como coordenadora do cuidado e ordenadora da rede de atenção à saúde. As tecnologias sociais e digitais são incorporadas como recursos complementares ao cuidado presencial, articulados à formação dos trabalhadores, à organização das linhas de cuidado e à qualificação da informação.

A intervenção está organizada em três linhas prioritárias: saúde materno-infantil, da gestação à primeira infância, com atenção à segurança alimentar e nutricional; saúde bucal, com ações de promoção e prevenção e utilização de recursos de teleodontologia; e doenças crônicas não transmissíveis, especialmente hipertensão arterial e diabetes, com ênfase no acompanhamento longitudinal.

Implementação e desenvolvimento das intervenções

O projeto é desenvolvido em duas Unidades Básicas de Saúde de cada um dos seis municípios, em articulação com gestores, profissionais de saúde e agentes comunitários de saúde. A participação desses atores constitui componente metodológico da implementação, permitindo que as intervenções sejam desenvolvidas a partir das necessidades identificadas, dos processos de trabalho e das condições concretas de funcionamento dos serviços.

Essa abordagem considera infraestrutura, recursos disponíveis, fluxos assistenciais e características sociais, ambientais e territoriais dos municípios, favorecendo a adaptação das soluções aos contextos locais.

Entre as iniciativas está a realização de um curso de atualização para agentes comunitários de saúde, construído a partir das especificidades da realidade amazônica. A formação busca fortalecer a atuação dos ACS no acompanhamento das famílias e na identificação de necessidades de saúde, considerando sua inserção territorial e proximidade com as comunidades.

Também foi desenvolvido um aplicativo para acompanhamento de usuários, com foco em gestantes e pessoas com hipertensão e diabetes que vivem distantes das UBS e apresentam dificuldades de acesso regular. A ferramenta deverá apoiar o monitoramento, a orientação e a comunicação entre usuários e equipes, ampliando a capacidade de acompanhamento da APS. Trata-se de recurso complementar ao cuidado presencial, destinado a enfrentar, entre outros aspectos, as barreiras impostas pela distância.

Outro componente é a estruturação de um Polo de Telessaúde na Ufopa, em Santarém, destinado a ampliar as possibilidades de atendimento, especialmente na atenção especializada, e de apoio às equipes de saúde. A iniciativa responde às desigualdades na distribuição de profissionais e serviços e às barreiras geográficas presentes nos municípios participantes. Entre os resultados esperados está a consolidação de uma estrutura de telessaúde incorporada ao SUS e o fortalecimento do Núcleo de Telessaúde da Ufopa, em articulação com a implantação do curso de Medicina da universidade.

Está também em desenvolvimento um painel para gestores, com dados e indicadores destinados a apoiar o planejamento, o monitoramento e os processos decisórios da gestão municipal.

Formação e capacidades institucionais

A implementação do Tecendo articula qualificação dos processos de trabalho, desenvolvimento tecnológico, produção de conhecimento e formação de profissionais e pesquisadores. A interação entre pesquisadores da FSP-USP e da Ufopa e os atores dos serviços favorece a produção de conhecimentos sobre implementação em contextos marcados por elevada heterogeneidade social e territorial.

A parceria entre as instituições contribui também para o fortalecimento da capacidade técnico-científica da Ufopa, particularmente nos campos da saúde coletiva, APS e telessaúde. A estruturação do Núcleo de Telessaúde e o desenvolvimento de tecnologias digitais constituem capacidades institucionais que poderão permanecer após o encerramento do projeto e sustentar novas iniciativas na região. O aplicativo, por sua vez, apresenta potencial de aprimoramento e expansão para outros municípios e contextos de atenção.

O Tecendo articula pesquisa, implementação, formação e desenvolvimento de tecnologias sociais e digitais, tendo a APS como eixo estruturante, buscando contribuir para a qualificação do cuidado e para o fortalecimento das capacidades institucionais do SUS no território amazônico.

Acesse o site do projeto: https://tecendo.fsp.usp.br/

Siga o projeto no Instragram: https://www.instagram.com/tecendoamazonia/

Boletim elaborado por Raquel Bergaria de Oliveira, doutoranda na FSP (USP)/Secretaria Executiva da Rede de Pesquisa em APS.

Rede de Pesquisa em Atenção Primária à Saúde – Abrasco


Boletim Informativo, 20 de agosto de 2026.

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