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Experiência de reorganização da APS para o enfrentamento da Covid-19 em Rurópolis (PA)

Continuando com a divulgação de experiências de reorganização da APS para o enfrentamento da Covid-19 nos municípios brasileiros, trazemos esta semana o relato da Dra. Fernanda Jacqueline Teixeira Cardoso, Secretária de Saúde de Rurópolis, município rural no interior do Pará, 217 km ao sul de Santarém. Enfermeira efetiva do município desde 2005 na área hospitalar, a Dra. Cardoso é gestora de Rurópolis desde 2017. Antes de assumir o cargo, ela já tinha um bom conhecimento da APS, e umas inquietudes em relação à organização da rede do município. Portanto, quando entrou na gestão, sua prioridade foi reordenar o sistema local de saúde, apesar das restrições orçamentárias devidas à baixa arrecadação municipal. De fato, Rurópolis encontra-se entre os municípios mais pobres do estado, sendo que uma grande parte da população depende de auxílios como o Bolsa Família, e 99% é usuária do SUS. Apesar disso, a Secretária conseguiu que entre 2018 e 2019 todas as UBS tivessem melhorias em sua infraestrutura. Deste modo, quando chegou a pandemia a APS estava bem estruturada e melhor preparada para enfrenta-la.

No dia 27 de fevereiro a gestão municipal ativou-se para estabelecer referências técnicas locais e criou o Comitê de Operações Emergenciais (COE), com uma comissão gestora e mais 13 comissões: Educação em Saúde, permanente e comunitária; Comunicação; Assistência ambulatorial; Assistência Farmacêutica; Apoio Diagnóstico (Laboratorial, de Imagem e Eletrocardiográfico); Assistência Hospitalar; Disk Vigilância (monitoramento, Denúncias, Regulação); Fiscalização Sanitária; Transporte eletivo e de emergência de pacientes; Telecuidado; Sistemas de informação; Medidas Preventivas Comunitárias; e Logística, Insumos e abastecimento. Dedicaram-se assim, inicialmente, à sensibilização da população, com publicidade (materiais informativos, redes sociais, radio, carros de som volante) e educação (reuniões com as associações, igrejas e comércio), ao monitoramento, especialmente das pessoas que chegavam de fora, e ao atendimento aos pacientes com sintomas gripais. Porém, em maio começaram a ter pacientes clinicamente positivos por Covid-19, diagnosticando oficialmente o primeiro caso no dia 12 de maio.

Consequentemente, intensificaram as medidas: estabeleceram barreiras sanitárias, organizaram ações de sanitização e entregaram kits de proteção para idosos. O foco foi evitar que os casos suspeitos de Covid-19 entrassem em contato com os demais usuários da rede de saúde. Portanto, definiram que o paciente suspeito não deveria passar pelas UBS da cidade, e centraram o atendimento em uma Unidade Integrada de Vigilância em Saúde e Atenção Primária (UNIVAP), onde também se realiza coleta de exame. Os Agentes Comunitários de Saúde (ACS), retirados das visitas domiciliares, passaram a apoiar na triagem nas entradas das UBS, direcionando usuários suspeitos para a UNIVAP, onde seriam atendidos com horário agendado. Adicionalmente, alocaram uma ambulância exclusiva para Covid-19, com equipe, motorista e equipe hospitalar de referência, para evitar que os pacientes suspeitos de Covid-19 passassem pela sala de emergências.

A Secretária apontou as dificuldades para testagem por RT-PCR (do inglês reverse-transcriptase polymerase chain reaction), sendo que as amostras podem ser enviadas somente duas vezes por semana para a capital, demorando até 15 dias em obter os resultados. Portanto, a gestão passou a priorizar os testes rápidos: os pacientes suspeitos de Covid-19 são submetidos ao teste rápido, e podem pegar os resultados online, por ligação, ou impressos na unidade. Adicionalmente, decidiram incluir o diagnóstico por vínculo epidemiológico, identificando as pessoas em contato intradomiciliar com pacientes positivos que apresentaram sintomas. Outra dificuldade tem sido a escassez de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), que foi parcialmente resolvida com a separação de equipes de referência, priorizando os EPIs mais completos para os profissionais que precisam de maior proteção.

Em relação ao papel da APS, que foi organizada de forma integrada ao restante da rede de saúde do município, destacou-se a participação das equipes na organização da resposta, e na divulgação e coleta de informações. Também foram envolvidas nas barreiras sanitárias, onde procura-se cadastrar os que chegam de fora, para poder acompanhá-los via disque vigilância. No atendimento, os profissionais da APS estabeleceram estratégias alternativas para entrar em contato com os pacientes:  grupos de WhatsApp, consultas a distância, e, quando necessário, visitas domiciliares. Esta maneira alternativa de ver o atendimento, segundo a Dra. Cardoso, será o legado da pandemia para a APS, junto ao reforço de questões básicas como a lavagem das mãos e outras normas de biossegurança. De fato, como parte da prevenção do contágio, colocaram pias na parte externa das UBS.

21 dias depois do primeiro caso, o município de Rurópolis tinha 125 casos (incluindo os diagnosticados por vínculo epidemiológico), 200 suspeitos, e 3 óbitos. A Secretária ressaltou a importância de ter agido precocemente, o que contrabalançou os efeitos da resistência da população às medidas de isolamento social e lockdown, estabelecido quando teve o primeiro óbito por Covid-19.

A Dra. Cardoso apresentou a experiência de Rurópolis para o Comitê Gestor da Rede APS no dia 03 de junho. É enfermeira, graduada e especializada como intensivista pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), mestre em Doenças Tropicais pela Universidade Federal do Pará (UFPA), doutora em Saúde Coletiva pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP) e professora da UEPA. A Rede APS aplaude a presença de pessoas tão qualificadas e dedicadas na gestão municipal da saúde.

Para mais informações sobre a atuação da Secretaria Municipal de Saúde de Rurópolis, visite a página de FaceBook: https://www.facebook.com/SEMSARuropolis.

Por Diana Ruiz e Valentina Martufi, doutorandas do ISC/UFBA que contribuem para a REDE APS

 

 

 

Rede APS

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