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A APS no enfrentamento da Covid-19 em municípios rurais remotos

O enfrentamento da pandemia Covid-19, além da garantia do cuidado individual requer uma abordagem comunitária de vigilância da saúde. Os serviços de atenção primária do SUS especialmente, as equipes da Estratégia Saúde da Família, por seus atributos de responsabilidade territorial, orientação comunitária e sua forte capilaridade em todo o território nacional são os mais adequados para esta abordagem. É importante que a reorganização do processo de trabalho na APS no contexto da epidemia se faça de modo a preservar os seus atributos de acesso, longitudinalidade, coordenação do cuidado, abordagem comunitária e familiar. É necessário manter o contato das pessoas com os profissionais de saúde que cuidam delas diariamente, tanto para detectar precocemente a infecção por Covid-19, monitorá-la e rastrear contatos próximos, como para atender a qualquer outro problema de saúde, garantindo a continuidade dos cuidados e o apoio social aos grupos vulneráveis, ao mesmo tempo em que se garantem as condições de proteção dos trabalhadores e usuários.

Dialogando com esta necessidade foi realizada a pesquisa “Desafios da Atenção Básica no enfrentamento da pandemia da Covid-19 no SUS”, conduzida pela USP, Fiocruz, UFBA e UFPEL tendo sido uma iniciativa da Rede de Pesquisa em Atenção Primária da Abrasco. Teve como objetivo identificar os principais constrangimentos e as estratégias de reorganização da atenção primária à saúde/ atenção básica utilizadas pelas Equipes de APS/AB no enfrentamento da Covid-19. No presente relatório divulgamos os resultados da investigação referente aos municípios rurais remotos, em comparação com municípios intermediários e urbanos.   

Os resultados da pesquisa podem orientar a gestão para implementar medidas para apoiar as equipes de saúde da família, no seu fazer cotidiano, para fortalecer as capacidades do SUS no enfrentamento da Covid-19. Recomendam alguns pontos urgentes no apoio, qualificação e valorização das equipes da saúde da família:

  • Fortalecer a capacitação e educação permanente de todos os profissionais das equipes de APS: Ainda que os resultados dos municípios rurais remotos tenham se apresentado equivalentes aos percentuais do país, somente 39,3% dos profissionais informaram ter recebido capacitação sobre Covid-19 e uso de EPI organizada pela gestão. Isto, não significa que os profissionais não conhecem; muitas iniciativas de capacitação gradualmente vêm sendo desenvolvidas, mas ainda são insuficientes. É necessário desenvolver estratégias ágeis e amplas de comunicação à distância para atualizar conhecimentos e capacitar para a vigilância em saúde e a vacinação.
  • As necessidades de educação permanente incluem: uso de EPI, abordagem da Covid-19, novas formas de atenção remota, formas de ação no território, e vigilância em APS.
  • A vigilância em saúde é uma ação que precisará ser continuada ao longo do tempo, pois teremos que conviver com a pandemia no mínimo por mais 12 a 18 meses – vigilância comunitária, ativa, que inclui vigilância epidemiológica e vigilância sanitária. 64,9% dos profissionais relataram ações educativas em equipamentos sociais no território, como farmácias, mercados e outros serviços, valor bem superior à média Brasil (33,8%), o que demonstra potência dos MRR na atuação junto ao território. 49,1% dos profissionais MRR informaram a realização de atividades de vigilância sanitária, o que precisa ser intensificado. A identificação dos contatos próximos e o acompanhamento do isolamento domiciliar precisam ser contínuos.
  • A pandemia no Brasil, devido à ausência de autoridade sanitária nacional que oriente suas ações com base no melhor conhecimento científico, e nossas profundas desigualdades sociais, está se alongando por muito mais do que o previsto e permanecerá por um longo tempo. A vigilância em saúde, juntamente com a vacinação para todos são a única maneira de conter a pandemia.
  • Cabe lembrar a importância da APS na vacinação: as equipes de atenção primária, mais do que nunca, têm o papel fundamental para fazer chegar a vacina em todos os lugares, em todos os territórios de difícil acesso do país. Os resultados do terceiro ciclo do PMAQ com avaliação de 90% das equipes APS do Brasil, em mais de 30 mil UBS mostraram que 77% das UBS ofertavam vacinação regular e dispunham de geladeira exclusiva para vacinas. Agora com a chegada da vacina nas UBS maior será o papel da APS com sua capilaridade em todo o país.
  • Urge intensificar a vigilância em saúde em todos os municípios: a identificação oportuna dos casos, a busca ativa de contatos e seu isolamento são medidas efetivas imprescindíveis para controlar a propagação da doença. Para a confirmação de casos e vigilância de seus contatos é imprescindível ampliar a oferta de testes moleculares RT-PCR.
  • Urge ampliar o acesso ao teste RT-PCR: O acesso ao teste RT-PCR é fundamental para diagnóstico, notificação, busca de contatos e alta dos pacientes, infelizmente ainda está distante do cotidiano dos serviços de APS no país. 34,4% dos profissionais respondentes nos municípios rurais remotos relataram que não há acesso ao teste molecular e apenas 19,7% mencionou suficiência em sua disponibilidade. Para o controle da pandemia, é fundamental ampliar a capacidade de testagem. Fazemos ainda muito poucos testes, o que se demostra pela elevada positividade dos testes que chega a 50%. Países que conseguiram controlar a pandemia alcançaram positividade de 5%, mostrando que estavam testando suficientemente contatos assintomáticos.
  • Urge valorizar e qualificar o trabalho dos ACS: na vigilância comunitária, no apoio social, na ação comunitária, na continuidade do cuidado, o que implica em capacitação específica.
  • Preocupa a elevada proporção de profissionais dos municípios rurais remotos (49,1%) que, assim como no Brasil, informa que os ACS estão trabalhando na recepção de sintomáticos respiratórios na UBS. No entanto, para 63,2% dos profissionais, os ACS estão prioritariamente atuando no território, percentual bem superior aos resultados do Brasil e dos municípios urbanos, intermediários e adjacentes. A ação comunitária do ACS no enfrentamento da epidemia é crucial: tanto no apoio social, como na vigilância comunitária, na educação em saúde por visita peridomiciliar e à distância por WhatsApp e telefone.
  • Urge ampliar a disponibilidade de celulares e acesso à internet de profissionais e usuários para viabilizar as novas formas de comunicação à distância que vem sendo desenvolvidas. Essa necessidade se intensifica nos MRR, com maior dificuldade de acesso à internet de boa qualidade e menor disponibilidade de celulares institucionais para comunicação dos profissionais da UBS com os usuários.
  • Urge equipar as UBS com: oxímetro, termômetro infravermelho, oxigênio e EPIs suficientes sempre disponíveis.

Os resultados mostram que a APS no SUS está se reinventando, fazendo vigilância, descobrindo novas formas de cuidado à distância por telefone, por WhatsApp, por visitas peridomiciliares dos ACS, mas faltam recursos, internet, oxímetros, termômetros infravermelhos, equipamentos de proteção individual, acesso a testes RT-PCR, educação permanente para os profissionais.

A Estratégia Saúde da Família com ação comunitária nos territórios, apoiando e realizando vigilância em saúde, vacinação e cuidado integral, é uma maneira efetiva de conter a pandemia, mas para isso necessita de mais investimentos.

Leia o relatório completo – Relatório APS e Covid-19_Municipios rurais remotos_Final_11.02.21 (1)

Rede APS

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